Abelardo era um homem amaldiçoado pela sorte. Ele dizia azar, na verdade. Só ele. De tanto falar, todos comentavam. — Como é azarado Aberlado, né? Não sei, nunca vi ele perder nada. — Desde o primeiro “não” de sua mãe, em que Abelardo tinha a maturidade para entender, já mentalizava: se tivesse mais sorte, seria “sim”. Abelardo escreveu desacreditado sua primeira carta para o Papai Noel. Não comentou com ninguém. Não ia ganhar nada mesmo, imaginava. Por todos os anos de vida que o bom velhinho ainda era realmente uma entidade verdadeira para Abelardo, todos os desejos foram atendidos. Que maldição de sorte. Mas Abelardo continuava negativo. Sempre achou que seus desejos eram lugar-comum e por isso, o senhor barba branca acertava em cheio. Sortudo ele.
Já no ginásio, Abelardo se inscreveu para o time de futebol. Incorporou em sua maldição e já começou a reclamar que nunca passaria na peneira. Nos 4 anos seguintes Abelardo ganhou o troféu de melhor jogador do campeonato. Sem nenhum sorriso. Não tinha sorte para comemorar. Sabia que aquilo era presságio de azar. Ganhei porque o Juninho machucara. Falava carrancudo.
Entrou no colegial. Com bolsa integral, mesmo Abelardo divulgando para os quatro cantos que não tinha acertado 10% da prova. Foi erro do sistema, por isso consegui. Um ano e meio depois, entre uma mordida no salgadinho e um gole de refrigerante no intervalo, por sorte mas por azar na concepção de Abelardo, ele viu Carmen. Foi como se uma maldição (esperada por ele) tivesse invadido seu corpo. Suava frio. O coração batia rápido. Nunca uma menina dessas vai me dar bola. Tenho muito azar. Negativamente apaixonado, namoraram 8 anos.
Abelardo era tão pessimista que seu mau humor encantava as pessoas. Ele se tornara a pessoa mais engraçada de qualquer evento. Carmem adorava aquilo. O sarcasmo. A chatice. As piadas de humor duvidoso. A cada ano Abelardo era mais amado e tinha mais gente ao seu redor.
Certeza que logo ela vai terminar comigo. Casaram-se.
Nunca vou conseguir ter filhos. Tiveram 4.
Como vou fazer para sustentá-los? Ganhou mais promoções do que campeonatos de futebol.
Certeza, eles me darão trabalho. Não vou conseguir criá-los como um bom pai. Todos formados em faculdades federais ou internacionais, sem nenhuma passagem criminal. Exceto o caçula que fez biologia e embarcou naquela viagem mística herbal para São Tomé.
Carmem vai me largar agora! Ninguém aguenta tanto azar por perto. Ficaram mais de 40 anos juntos.
Alguma doença vai vir! Não vou conhecer meus netos. Abelardo paparicou 6 netos e 2 bisnetos.
Logo vou usar fraldas. Será ridículo! Ganhou 3 vezes seguidas a maratona master 70+ do litoral paulistano.
Não vou viver muito! Em seu aniversário de cem anos, o senil Abelardo comentou lucidamente quão azarado é morrer com 3 dígitos de idade. Isso não vai dar certo, dizia. É como se fosse o 666. Que maldição. Sou um anticristo geriátrico. Um ancião do inferno.
Por azar de Abelardo ele teve uma vida de sorte. Sua maldição foi embora na reportagem especial da Band no programa do Datena em sua festa de 105 anos, quando puxou o braço de sua neta Maria de 15 anos para dizer ineditamente sorrindo:
— Se eu tivesse sorte, seria na Globo!

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