#03 | MMA Egípcio

Você de novo? Sim. Que coisa chata. Sou o começo de tudo, sempre. Não deveria ser tão dura. Faz parte. Você me trava, sabia? Que chororô bobo, vai ser sempre assim? É que não é fácil. Mas é o jeito. Eu sei. Se sabe, não reclama. Não estou reclamando. Está sim. Tá bom, estou. Eu sei. Eu sei que você sabe. Some da minha frente. Impossível. Eu sei. Outra coisa que sabe e continua resmungando. Me deixa. De novo outra coisa impossível. Vamos lá, vou começar. Será? Não me subestime. Nossa, palavras rebuscadas, será que agora vai? Estava na ponta da língua, vim pensando no carro. Anotou? Não. Fica difícil dessa maneira, você deveria saber que eu estaria aqui. Ahã. Então? Pow… você é mala mesmo. Mala não, sou fina. Convencida. Elegante, com a espessura correta. Chega. Formato harmônico. Mais alguma coisa? Meu nome é um código de letra e número, não é muito chique? Agora já foi demais, preciso voltar aonde estava. Você nem para escrever em algum parente meu que embala os pãezinhos todos os dias e agora quer lembrar? Vou lembrar sim. Não vai. Você é má. Só sou realista. Pessimista. Desculpe, minhas pontas são retas, às vezes, posso espetar. Vou te amassar. Não adianta, somos um exército. Ah é? Sim. Então, vou te picotar e queimar. Já falei que não adianta, somos guerreiras de dois lados, nosso poder é duplo. Não me fala da segunda se nem comecei a primeira ainda. Rárárá verdade, vamos senhor dedos, me digite, eu sei que você pode. Não zombe de mim. Está vendo, mesmo você me atacando fisicamente, virtualmente sou praticamente invencível. Posso te fechar! E eu volto como um novo arquivo. Sem salvar. Pior para você, volto tão branca quanto antes, agora até mais magrinha, usando bem menos RAM. Está vindo, deixa eu escolher a fonte que eu gosto. Vai conseguir colocar gordurinhas de megabytes em mim ou não? Como era mesmo… “O menino estava correndo pelo quintal quando…” meu deus, não lembro! Adoro esse meu papel (sacou?) de bruxa má. Estou com bloqueio. Não é a primeira vez. Tenho a criatividade de uma árvore. Não fala assim da minha mãe. Você nem lembra dela. Ela está em mim, sinto em cada fibra. Até agora pouco você estava defendendo sua composição binária de zeros e uns. Sou como uma deusa, onipresente. Te odeio, sabia? Não deveria, eu eternizo suas parcas ideias. Vai me ofender agora? Carta romântica após amor de praia é brega, não acha? Eu tinha 17 anos. E eu tenho mais de 1.900 anos se você contar a partir da minha criação no Egito e nem por isso estou enferrujada como seu cérebro. Eu fiz mais textos. Autoajuda? Sim, por quê? Estamos nivelando por baixo agora? Eles são importantes, transformam a vida das pessoas. Será? Se não fosse verdade, não faria tanto sucesso. Olha você aqui, sofrendo, não conseguindo sair do lugar. Vou usar uma técnica. Seria ótimo se usasse a técnica de escrever. Silêncio. Não estou impedindo, estou aqui, clara, limpa e pronta. Como era mesmo… imagina uma luz entrando pela minha cabeça até meus pés… invadindo meu corpo, me colocando onde imaginar. Oiii, olha eu aqui, saiu alguma coisa dessa iluminação toda? Estou em um buraco. Agora gostei, curto histórias quando já começam com algo ocorrendo. Eu que estou em um buraco, não a história. Ah tá, pena. É tão fundo e escuro. Poesia? Aí sim. Não, fica quieta, são meus pensamentos, não tem nada a ver com você. Você precisa de mim. Já falou isso. É bom repetir. Por que larguei o emprego? Você me queria todos os dias, mas se ajuda (viu? “se ajuda” prima da “autoajuda”). Cala a boca. Grosseiro. Já é madrugada, as palavras não veem. Estão dormindo… desculpe. Engraçadinha. Também. Hoje à tarde eu tinha tudo pronto. Estou esperando. Para de me pressionar. Pode piorar. Como? Se desistir hoje, amanhã eu volto com mais poder. Isso é verdade. Coloca alguma coisa, você estava falando sobre menino, quintal, não é isso? Era, mas não era tão interessante. Isso eu tenho certeza. Eeeeeeee. Eu sei dos seus limites. Não sabe. Ô se sei, desde daquela redação horrível sobre suas férias na 4ª série. Foi ótima. Pra você que não foi tatuado com as palavras “viajem”, “pécina”, “sóu-estelado” e “natassão” – tudo eternizado em caneta esferográfica verde. Eu era um menino. E eu era uma senhora de milênios, merecia respeito, quer dizer, mereço. Desculpe. Agora já foi. Para quebrar esse bloqueio vou fazer um texto que gosto. Socorro. De lista. Me fecha sem salvar, por favor. Tipo: 5 dicas para alguma coisa. Faraó, me ajuda. É isso, estou sentindo minhas sinapses borbulhando. Quero borbulhar no cadeirão da reciclagem e virar um ondulado. Já sei: 5 dicas para ser feliz! Pra mim chega, prefiro ser embalagem do que ser cúmplice de autoajuda. Eita, o Word fechou sozinho?

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