#04 | Talvez mais um texto sobre a Copa

Talvez não exista tantos bons adjetivos para qualificar o maior evento do planeta. A Copa é mágica. Gigante. Imensa. Ou seria única. Em uma final de copa do mundo, uma invasão extraterrestre não encontraria resistência. Na pausa para a hidratação a gente poderia começar a reparar que estaria (talvez) acontecendo algo diferente, mas a atenção seria dividida pelo tempo que temos para esvaziar a bexiga.


Não tenho dúvidas que seres de outras galáxias bateram e voltaram. Em 1970 é fato. Encontraram muito silêncio e pessoas hipnotizadas pelos televisores.
— Já foram abduzidos. Chegamos tarde. — Depois de duas batidas no capô da nave: — Bora pra Marte!


Talvez outra qualidade da Copa é transformar seres ordinários em especialistas. Sabemos que a internet já faz isso. Hoje temos analistas políticos, cientistas, médicos-cirurgiões, jornalistas e até astronautas após assistirem posts de TikTok, stories de Instagram e vídeos de WhatsApp (enviados em grupo de família). Mas a Copa tem a capacidade de certificar esse ser de inteligência-scrolling e QI duvidoso em vidente convicto. Uma Mãe Dináh graduada e com pós-doutorado internacional. Ela converte um cidadão, nascido em Serra da Saudade-MG (900 habitantes), que possui um círculo de amizade que encerrou o crescimento com a formatura da 8ª série, a dizer empiricamente:
— Essa Copa foi comprada e eu já sabia disso!
— E você apostou no bolão com essa informação?
— Claro que não. É comprada!


Depois do episódio do Trump, pode-se dizer (sem talvez) que ela mandada. Mas o cartão vermelho ficou preto-amarelo-vermelho para os EUA. Levando em conta esse acontecimento, talvez nosso Gênio da Lâmpada com opcional de Nostradamus poderia (dificilmente) estar certo.


Que ela une é utopia. Hoje nem a música e a matemática que são assuntos universais conseguem esse êxito. Quem já esteve em um posto de troca de figurinhas da Copa sabe disso. Já foi presenciado (juro!) uma avó trocando socos com um monge tibetano por uma figurinha especial do Cristiano Ronaldo em um ponto de encontro dentro de um mosteiro. E a trilha sonora de fundo era Enya tentando abafar a frase: — O Cristiano é meu, sua velha-meretriz!


Talvez seja o assunto em comum entre tanta gente diferente que fortalece essa energia da Copa. Ela mostra o quanto o ser humano é parecido. Piegas e previsível. Independente do time. Da fronteira. Da cor. Do gênero. Todos torcemos por algo. Todos aprendemos o hino para cantar em algum lugar. E parece ser na Copa (pelo menos). Todos gostamos de um assunto que converge opiniões. Todos queremos vencer. Brindar a vitória e gritar CHU-PA! para o nosso vizinho (doméstico ou territorial) em algum momento.


Mas não existe talvez quanto ao final. Ela acaba hoje. Dia 19 de julho de 2026. Vai deixar saudade. Como sempre. Ela é aquele nosso amigo gente boa que encontramos a cada 4 anos, mas temos a sensação de que vimos ontem. A edição de 2030 vai parecer estar perto e a desse ano de ter acabado há muito tempo. As teorias da conspiração irão se renovar. A porradaria por figurinhas vai continuar. E o morador de Serra da Saudade saberá que o resultado é comprado (mas não vai apostar, claro).


E talvez seu risco de abdução esteja em um nível seguro na próxima final, se você não sair para tirar aquela água do joelho, durante as cobranças de pênaltis. Mas talvez ele, o ET conquistador-invasor, esteja ao seu lado secando o adversário ou gritando CHU-PA! contigo.

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