Não foi nada de mais, mas provocou mais do que se esperava. Mas até hoje não se sabe se o tal “i” causou mais ou menos problemas do que se conta. Dois reis, nada mais. Mais do que amigos. Irmãos de vida. Mas brigaram. Mais do que briga. Guerra. Ou quase. Mas um único vilão. Na verdade, vilã. A vogal — i.
Um era estudioso e com a razão como alicerce. Gregório, seu nome. O outro era ignorante e a emoção como mentora. Dagoberto, sua graça. Há anos não se viam pessoalmente, mas foi quando a ideia de uma carta de convite mudou o rumo do futuro.
A carta de Gregório:
Querido Rei Dagoberto,
Há tempos não nos vemos, e venho através dessa carta, informar o quanto desejo lhe falar sobre minhas preocupações. Na verdade, o futuro de nossos filhos, e por consequência, nossos reinos.
Rei Henrique vem tendo atitudes maliciosas de expansão. Sinto a ameaça bem próxima.
Gostaria muito que meu filho, Demétrio, conhecesse sua filha, mas ele é mais provido de inteligência do que a beleza de sua rebenta. Por isso, penso que se você falasse para a jovem Clementina, para ela aceitar meu herdeiro mais de coração aberto, do que de olhos, seria um grande começo.
Mas fique à vontade em jogar toda essa ideia pelo fosso, quando tiver mais conhecimento dos pensamentos de sua Princesa, e caso eles forem negativos, nossa amizade é mais do que um casamento, mas a união será de grande júbilo para nossos reinos e legados de nossas famílias.
Sem mais,
Rei Gregório
Era uma noite quanto a carta chegou ao reino. Como costume noturno, o Rei já estava embriagado e como todos os sábados, Dagoberto além de completamente bêbado estava cercado dos piores inimigos travestidos de amigos que se pode conhecer em uma madrugada, refastelados de pernis de porco e ensopados de cordeiro.
— Vossa Majestade! Vossa Majestade! Uma carta para o senhor acaba de chegar. — Gritava o empregado com a face coberta de vinho e banha. Entregando o envelope e tropeçando no vira-latas em caçava restos caídos no chão.
Dagoberto que estava no momento mais interessado no decote da jovem escrava que servia seu vinho, responde:
— Oh Inferno de Luva! “Má” de onde vem tal “promissão”? — Já levantando e dando um último tapa na nádega esquerda da serviçal.
Assistindo com uma distância segura, mas já chegando perto para uma intervenção, o Jovem Caleb, que nunca entendia a expressão “Inferno de Luva”. Era braço direito. Empregado leal. Abstêmio. E já sabendo dos problemas de visão, coerência, coesão, gramaticais, ortográficos, de entendimento, ausência de inteligência, amnésia e alcoólicos de seu Rei, pede que o correio seja aberto pela manhã, após os ovos pochê de pata da Dinamarca sejam a cura para tamanha ressaca.
Dagoberto que já estava apertando outra nádega esquerda, de outra empregada, em outro canto do salão, de outra mesa, com outros bêbados, grita de um jeito outrora diferente, imitando um porco, enquanto andava de quatro em cima da mesa, derrubando pratos, copos e sua total dignidade:
— Rói! Rói! CaRéb! Rêia! Rêia! Arôra — Gargalhando com sua própria interpretação.
— Mas Vossa Majestade, não seria melhor fazermos isso pela manhã?
— Nada de mais CaRéb! — ainda forçando a imitação do animal suíno.
— Eu disse “Mas” Senhor e não que era nada “de mais”. São significados diferentes. — Tentando mais uma vez com o mesmo sucesso de um tiro de pólvora molhada.
No mesmo momento que um soluço que fez suas calças despencarem ao chão, Dagoberto grita. A quem diga que nesse momento além das calças caírem, o Rei rebolou seus quadris e com seu membro exposto provocou uma certa ventania nos longos cabelos do dono serralheria que mordia o último pedaço de peixe salgado da mesa.
— Oh Inferno de Luva! Vou ler eu mesmo! Já que está com tanta “frequera”. Eu que vou falar em voz alta para o meu povo! Me traga mais uma caneca de vinho para “mim” preparar minhas cordas “vogais”. Ande homem!
Sentindo que isso não acabaria bem, mas sem saber o que mais fazer, com total resignação Caleb abaixa a cabeça em derrota de argumentação.
Dagoberto tenta ficar em pé na mesa, mas sua bebedeira não permite. Acaba sentando e puxando outra serviçal para ficasse em seu colo. Pede silêncio e começa sua leitura com parca visão e chula interpretação.
— Vejam! É uma carta do Rei Gregório. Gosto desse “armofadinha”. Pena que não sabe arrotar e muito menos passar cinco dias sem banho. — Rindo novamente de sua própria piada. — Até hoje não entendo por que precisa ser todos os dias. Não falei que é uma moça esse Gregório, ele usa “desejo” para falar com outros homens. Acreditam?! Henrique… Quem é Henrique mesmo? Ele comprou uma “expansão” perto daqui? Alguém sabe de algo? — Dagoberto grita para o bando de ignorantes festeiros do salão. Sem deixar que uma resposta retorne, continua seu entendimento do texto — Como assim?! Minha filha precisa de mais inteligência e beleza?! — com o sorriso desfalecendo de seu rosto — Ele quer minha filha aberta para os olhos do filho dele?! Inferno de Luva! Inferno de Luva! Caleb! Caleb! Pegue os “carralhos”! “Ramos” à guerra!
Caleb meio sem entender, assustado pega a carta que Dagoberto joga para o alto quando se levanta e deixa sua calça cair novamente, mas a plateia estava tão embriagada e acostumada a ver as partes de seu rei, que ninguém deu a mínima para o ocorrido. Caleb começa uma leitura rápida do texto de Gregório e inicia a argumentar para tentar encerrar toda a aquela loucura:
— Não, não, não, não é isso Vossa Majestade. Permita-me explicar! — Gaguejando tenta dizer que seu rei não entendeu direito. Correndo atrás de Dagoberto pelo salão.
— Guerra! Guerra! Guerra! Quem vai comigo?
Metade das pessoas do salão estavam bêbadas e outra parte já estava dormindo de tanta esbórnia de comida por horas seguidas. Mesmo sem o retorno esperado, Dagoberto cambaleia, pula três corpos alcoolizados, bebe mais duas canecas de cerveja, uma de vinho e segue sua caminhada. Ao sair do salão chama sua filha Clementina. — Pegue os “carralhos”! Agora! Já que este mole do Caleb ainda está tentando entender a “bargaridades” que aquele maricas do Gregório me escreveu.
Clementina era linda. Nórdica. Cabelos dourados e olhos claros. Tinha um corpo atlético, resultado de anos de treino em luta. Mas sua beleza era totalmente proporcional a sua braveza e instinto de competição somados com ignorância explosiva. Com a perda de sua mãe muito nova, Clementina apreendeu cedo a se defender e não fugir de nenhum conflito. Pelo seu jeito duro, seu pai sempre a colocou para trabalhar nas mais diversas tarefas, sem medir os tipos de funções. Foram anos da cocheira até cozinha, para só depois começar a usufruir das regalias que sua posição disponha. Mas Clementina tirou de letra, gostando de cada vez mais de caminhar por estes diferentes mundos do reino.
— Eita! “Cárma” Pai! “Cárma” Pai! Deixa eu terminar uma coisinha — Clementina estava tirando braço de ferro com um dos clandestinos que a cidade recebia todos os dias. — Chega agora, meu pai “percisa” de mim! Ah! — Levando o braço de seu adversário a lona. Ela dá uma gargalhada e cuspe um gole de vinho do derrotado. — Toma essa Seu “armofadinha”! — saindo em disparada atrás de seu progenitor.
Clementina herdou características de Dagoberto: Erros ortográficos e o não gosto pelos livros e estudos, além do jeito caipira feudal de falar.
Os dois se davam muito bem.
Caleb ofegante, transpirando por todos os poros de seu corpo, com os olhos arregalados e com a pele do rosto vermelha como sangue, consegue sair do salão e avista Clementina correndo atrás de seu pai, que estava novamente com as nádegas de fora indo em direção aos cavalos — Ai Meu Deus! Os dois juntos não! — Caleb sai em disparada com as últimas energias que possui.
A cocheira estava somente com um animal. Dagoberto chega primeiro. Escorregando em um monte de estrume, mudando a cor de sua bunda branca para verde. Clementina que assistiu o tombo logo em sua chegada começa a gargalhar incessantemente.
— Eita! O que “tá” acontecendo Pai? — respirando para gargalhar mais um pouco. — Por que está de “carça” arriada… verde? — deitando-se no chão e colocando a mãos na barriga de tanto riso.
— Inferno de Luva! Inferno de Luva! Essa calça não para de cair, tenho que ficar segurando no “centulião” para não ir totalmente aos pés. Agora, pare de rir menina e me ajude a selar este “carralho”. Vamos começar uma guerra essa noite!
— Eita, guerra? “Mácomquem” Pai? — ainda soltando seus últimos risos.
— Rei Gregório!
— Eita, “Gergório”, nosso amigo? Eita!
— Para com este “Eita” do inferno! Inferno de Luva!
— Que luva Pai? — Clementina nunca sabia quando seu pai estava querendo falar luva, de verdade, ou luva, pertencente ao inferno.
— Não tem luva, é Inferno de Luva! É uma “explanação” de linguagem!
— Eita… opa, desculpa Pai. O que é “explanação”?
— É quando as pessoas usam uma palavra totalmente diferente do que elas querem realmente falar. E o “sirguinificado” é o que elas querem dizer. Então vira tudo uma “explanação”. “Tende”?
Escorregando pelo estrume que Dagoberto caíra, chega Caleb parando aos pés de seu rei, que despenca em conjunto. O cansaço era tanto, que Caleb puxa o ar segurando a ânsia de vômito. Com a queda em dupla, Clementina retorna com seu ataque de riso e gargalhadas sem parar.
— Inferno de Luva Caleb!
— Vossa Majestade! — Caleb inspira com desespero.
— Inferno de Luva! Olha nossa “sugestão”! Isso é maneira de um rei estar.
— Vossa Majestade! — com mais dificuldade de ar, Caleb suspira.
— Diga seu “Inguame”!
— Vossa Majestade, por obséquio, vossa alteza poderia sair de cima de mim — Caleb solicita com a voz apertada.
Apoiando com as mãos cheias de estrume no rosto de Caleb, Dagoberto fica em pé novamente. Clementina que já estava com lágrimas em seu rosto de tanto rir, pergunta:
— Eita, o que íamos “fazê” mesmo?
— Guerra Filha! Guerra!
— Vossa Majestade, não foi o que o Vossa Alteza pensou, que Rei Gregório escreveu! — Seguindo Caleb com sua tentativa de explicação que mais uma vez, foi sem sucesso.
— Eita Pai, ele é nosso amigo, né?
— “Rubá”! Vamos “Rubá”!
— Eita “Rubá” o que pai? Ele te roubou? — Pergunta Clementina com uma interrogação no rosto.
E foi assim que Dagoberto, Clementina e Caleb saíram em disparada para o reino de Gregório. Selados em um único cavalo. Apertados. Suados. Caleb, o menor da trupe. Ao centro. Com o rosto colado nas costas do rei Dagoberto. Como o aroma de estrume subindo a cada cavalgada. E Clementina apertando seu forte corpo ainda mais em Caleb, para ajudar esporar o pobre cavalo, que em sua irracionalidade pensava que ser chamado de “carralhos” era o menor do seu problema.
O que não foi calculado, por motivos óbvios e alcoólicos, que a viagem até o reino de Gregório teria a duração que transformaria o empolgação de Dagoberto em sono e logo após, esquecimento.
— Freia Majestade! — Gritou desesperadamente Caleb.
— “Fréria” Pai! Eita! Eita! — Gritou sorrindo Clementina.
— Inferno de Luva! Pára “carralhos” – Gritou acordando Dagoberto.
A chegada foi igual início. Só alterando estrume por lama. Os três despencaram em uma poça molhada em frente ao Castelo de Gregório.
Clementina ria. Caleb buscava ar. Dagoberto perdeu as calças novamente.
A madrugada já estava quase ao fim quando Gregório foi despertado por seu filho. Demétrio era realmente desprovido de beleza, como dizia a carta. Seu pai sempre assustava e fazia o sinal da cruz quando era surpreendido pelo filho. Mas seu coração era gigante. E seu corpo também. Era um soldado ágil e forte. Todas as pessoas do reino adoravam Demétrio e seu problema de gaguejar se transformou em charme com o passar dos anos.
— Pá-pá-pái, tem alguém lá fora.
— O que, meu filho? — perguntando ao final do susto e sinal da cruz.
— Te-te-tem pessoas lá no portão. Estão bri-bri…
— Brigando?! — Gregório as vezes não tinha a paciência paterna de aguardar as palavras completas.
— Brincan-can-can-do Pai.
— Como?
— Estão ri-ri-rindo!
Os portões se abriram em cautela. Gregório caminha em escolta de seu filho, de espada em punho, pensando que estava reconhecendo aquela gargalhada distante. Atravessa a ponte do fosso que protege seu castelo. Chegando mais próximo encontra três seres de diferentes dimensões, cobertos de lama, somente com os brancos dos dentes em destaque, rindo sem parar.
Dagoberto fazendo sua imitação no ambiente de seu personagem — CaRéb! Rêia! Arôra — Clementina imitando o pai, misturando riso com vários “CaRéb” no meio de toda aquela lama. E Caleb, já sem força de qualquer seriedade ou racionalidade para momento, entra no riso de toda aquela situação cômica.
— Dagoberto, é você meu amigo? — indaga Gregório, com surpresa no rosto.
— Seu Armofadinha! — responde Dagoberto coberto de lama. — Você continua o mesmo “frequerinho” – completa rindo.
Nesse momento os olhares de Clementina e Demétrio se encontram e os sorrisos se juntam. É amor à primeira vista. Os reinados definitivamente estarão seguros.
Caleb que após assistir todo esse encontro mágico. Toma um susto no primeiro raio de nascer do sol que chega ao rosto de Demétrio, e se benze com o sinal da cruz. Mas feliz. Leve. E sujo, muito sujo.
Os cinco seguem para o castelo, com a promessa de Gregório pedir para preparar os ovos pochê de pata da Dinamarca para Dagoberto. Clementina e Demétrio de mãos dadas.
Após banhos, risadas, cafés, ovos e mais risadas. Dagoberto, que já tinha esquecido de boa parte do motivo de estar ali e só lembrar como é bom estar com seu velho companheiro Gregório, pergunta para seu fiel escudeiro:
— CaRéb, vamos “Rubá” para o território desse tal de Henrique e aumentar nossa “explanação”?
Caleb, em seu português perfeito, responde:
— “Seje-menas. Vossa Majestidade. Seje-menas”.
E assim termina sem começar, a quase-guerra do “i”. Contada e cantada pelos reinos da ortografia e da gramática até hoje. Utilizada como ensinamento pelos mestres da linguagem e satirizada pelos ignorantes. Mas até hoje, ninguém ousa desafiar o poder de uma vogal e seu sentido.

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