#06 | Entre Pontes e Paces

Quando o silêncio-cinza é quebrado de forma inesperada.
— Psiu. Psiu. Psiuuu?
Meio sem entender, ela vira o rosto, abrindo lentamente os olhos.
— Está meio frio aqui, né? — ele pergunta com início de sorriso.
— Como?
— Frio! Não acha? — Permanecendo com o semblante jocoso.
Silêncio desconfortável com luz constrangedora.
— Você sabe se existe um motivo para isso? — mostrando com o movimento da cabeça o restante do seu corpo — Por que já que eles tiram nossa roupa, é necessário deixar o ar-condicionado dessa maneira? Deve ser o mesmo místico motivo dessa prateada cama não ter estofado. Pô, olha nossa situação.
Meio ainda querendo entender toda aquela situação, ela responde vagamente:
— Ahã…

Estamos um pouco atrasados no cronograma do dia, mas logo vocês descem. Está tudo bem por aqui? OK. OK.

— Então, você vem sempre aqui? — ele retorna com a mesma alegria.
Não querendo acreditar, ela responde:
— Você está falando sério?
— Claro, nunca brinco quando estou todo de verde.
— Isso não pode estar acontecendo. Você quer conversar agora?
— Você acha ruim? Nessa situação em que estamos, as nossas chances de programar algum futuro diminuem exponencialmente — de forma segura, ele continua seu acadêmico discurso: Algum livro de autoajuda diz que o urgente é agora! Nunca poderia ser tão verdadeiro como nesse momento — termina recuperando o fôlego.
Querendo sumir, evaporar, teletransportar, desmaiar, mas sabendo que não seria fácil, decide entrar no diálogo com um tom sem interesse.
— Gosta bastante de falar?
— Quando não injetam algo em mim ou me dão gás alucinógeno, até que sim — responde na ponta da língua.
Ainda de um jeito desinteressada, retorna:
— Nesse caso você poderia ir primeiro — começando a esboçar um sorriso de canto de bochecha.
— Ladies first! Eu faço questão — resposta acompanhada com duas gargalhadas misturadas com tosse.
— Homem é tudo bundão mesmo. É um padrão que se mantém em todos os lugares. Até aqui!
No final da gargalhada, só restando somente a tosse, ele retruca meio engasgado — Para quem não queria falar, você está bem cheia de opinião agora.
Já com a humor fechado, ela aumenta o volume da voz:
— Tagarela, bundão e grosso. Tudo que eu precisava. Será que vai demorar muito? — termina de forma impaciente, balançando os pés até as coxas.
— Acho que você não deveria perder a oportunidade? — questiona de forma segura com paz em sua voz.
— Oi? Como? Que oportunidade? — Já indignada.
— De sair comigo ou pelo menos pegar meu número? Olha que desculpa não faltará para me dar um fora depois que acabarmos por aqui. Estou indisposta é o toco mais fácil.
Sorrindo e não conseguindo mais segurar a risada ela responde:
— Olha a sua situação?
— A sua é muito diferente? Só porque você lembrou de passar batom não quer dizer que tem passagem de volta garantida.
Silêncio como se a realidade da vida tivesse não batendo na porta, mas, sim, arrebentando com uma voadora.
Com o rosto fechado e o olhar de perdão: — Desculpe, fui escroto. Você também é safena?
Após um longo período percorrido em um infinito minuto.
— É sim… Legal. Bacana. Como alface. Corro. Bato meta de proteína. Corro. Três litros de água por dia. E corro. Me sinto um periquito com tanta semente que tem no meu armário, mas ainda assim um colesterol que deve ter vindo da metamorfose do brócolis com a quinoa conseguiu criar um pedágio na minha veia.
Agora foi ela quem conseguiu derreter todo o gelo da situação, despertando uma risada instantânea nele:
— Muito bom. Perfeito! É terrível mesmo. Mas relaxa, quando a gente volta se sente um ser muito mais chato. E correndo mais ainda.
— Chato?
— É — Já com o corpo virado para ela na estreita mesa — Cheio daquele papinho positivo que tudo vai dar certo. Superei. Voltei e sou dez anos mais jovem. Eu também corro e palavra a pace virou vírgula na minha boca. Comecei calcular tempo x distância até para comprar pão na padaria.
— E melhorou? — Sorrindo, pergunta rapidamente.
Meio sem entender (ainda). Com uma interrogação no meio da testa:
— Não entendi.
Maliciosamente, ela pergunta.
— Diminuiu seu pace, Sr. Corredor? Porque o meu está cada vez melhor.
Pela segunda vez, em pouco tempo, ele cai na risada.
— Se você não tivesse com este lindo sorriso, juro que te mandava para o inferno das corridas. E lá nem banana você ganha no final.
— Acho que você está piorando ou estagnado.
— Como?
— Hum… até agora não falou sua média. Eu aqui falando que corro também e você “correndo” dos seus resultados.
— Para. Faço corrida, sim! — Tentando encontrar o controle da situação.
— Será?
— Vamos parar por aqui. Já saquei a sua. Você é corredora doente. Está viciada.
— Vamos! Me conta seu pace. Não é tão comunicativo. — Rindo, ela completa — Estou achando que é campeão de caminhada no Strava.
— Nossa, você sempre fala bastante assim? — Perdido em seu próprio diálogo.
Ela responde com uma piscadela:
— Não se preocupe, eu vou primeiro.

Olá Beatriz! Vamos descer? Dr. Armando e equipe já estão na sala a sua espera.

Ainda rindo — Enfermeira, só estou com um problema antes de ir contigo. Não sei o nome do chato-Bolt aqui ao lado.
— Nossa BE-A-TRIZ! Viu, como presto atenção? Como já usei meu bilhete de volta algumas vezes, a sua chance de não precisar me ver novamente após essa ponte é muito maior do que eu conseguir te ver após a minha ponte. Vou te deixar na curiosidade.

Beatriz, vamos.

— Espera. Espera. OK. Anota meu número.
— Como o que? Isso é maldade.
— Sério. 112 e 5,5.
— Oi?
— O quarto é 112, mas o pace médio da garota aqui é 5,5!
— Inacreditável! Volta logo corredora, tem uma sopinha de semente de girassol te esperando — rindo com a alegria da certeza que será uma boa competição.

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