A probabilidade de você ter assistido é alta. O Curioso Caso de Benjamin Button é um filme de 2008. Estrelado por Brad Pitt e Cate Blanchet. Maravilhosamente dirigido por David Fincher. Puxe na memória (ou será que vai perguntar para o ChatGPT?) e lembre que o filme conta a história de Benjamin. Um homem que nasceu velho e com o passar do tempo vai rejuvenescendo.
A humanidade está sendo acometida desse mau também. Mas ao contrário. Benjamin nasce idoso com a mente de um bebê. Somente seu corpo é antigo. E com o passar o tempo vive histórias. Aprende. Têm experiências. Conhece pessoas. Personagens da sua vida. E vai ficando mais novo.
A sociedade está vivendo na contramão do aprendizado. A Inteligência Artificial está sendo a algoz. Hoje está tudo sendo entregue. Rápido e superficialmente. Há um tempo a gente não se perde mais. Aplicativos nos trazem esse conforto. Caso não cozinhe, a comida chega em dois cliques. A compra atravessou oceanos. Caso você queira uma coleira da Sibéria para o seu cachorro, que pode ter chegado do Butão, basta 2 minutos de pesquisa e um cartão de crédito.
Até aqui tudo bem. Faz parte.
O problema agora é um pouco mais controverso. A capacidade de pensar está sendo terceirizada. Defensores dirão que a inteligência e lógica estão na criação do prompt. Será? Será mesmo? Será que o trabalho de retorno do seu prompt não está sendo revisado com outro prompt?
Este não é um texto de apologia contra a IA. Seria batalha perdida. Ela está entre nós. É irreversível. Mas dentro de tantas mudanças evolutivas (ou não) que sempre ocorreram, essa está dando-um-certo-medinho. Aquele friozinho na barriga quando você vê, lê ou ouve duas ou três reportagens sobre o assunto.
Começando por uma notícia recente. Pela primeira vez foi registrado que alunos de países ricos têm seu pior desempenho escolar da história. Estudantes apresentaram perda equivalente a um ano de aprendizado. Leem menos e com pressa, usam inteligência artificial em excesso e não se interessam pelos conteúdos estudados. Já até foi criado um termo para isso: “preguiça-cognitiva”.
Saindo agora da categoria medinho para assustadora: O CEO da Anthropic, Dario Amodei, alertou publicamente que os agentes de IA serão capazes de coordenar e assumir o controle de partes inteiras da internet. Tranquilo?
O discurso popular é que a IA está nos ajudando com atividades operacionais. Do que é automático. Para termos mais tempo. O período livre ficar maior. Mais longo. Mas o que estamos fazendo com esse suposto tempo livre?
O que está acontecendo é sutil, com um ritmo progressivo. A capacidade cognitiva do ser humano está sendo drenada. Dia-a-dia. Logo teremos rede de academias-acadêmicas CérebroFit e MindBianco para as pessoas voltarem a pensar ou igrejas vendendo a salvação do vício em Prompt. Deus vai te ajudar a escrever esse e-mail sem os demoníacos HellGPT e Evil-Claude. A escrita está sendo rebaixada a comandos, tópicos e verbos de ação. Já está a venda cursos como: SEU LIVRO COMEÇA COM O PROMPT CERTO. Será o fim?
Somos os únicos seres vivos racionais desse planeta. Temos esse rótulo porque pensamos – Raciocínio. E essa capacidade está voltando para a caverna. E dentro dessa caverna está sendo enterrada outro fator muito importante. Nossa coragem de acreditarmos em nós mesmos e daquilo que fazemos. Como se tudo que criamos agora precisa estar perfeito e melhorado. Estamos sendo cerceados do processo. O processo de fazer. De curtir. De acreditar. De tomar forma. O resultado agora é automático e pronto.
A vida retratada de Benjamin Button é prolífica porque tem erros. Tem hesitação. Tem o acaso. O inesperado e o imprevisto. Ela foi vivida a cada dia. O tempo era valorizado. Ele sabia que em algum momento iria estar tão jovem, que não teria mais consciência.
Viver demanda tempo. E tudo que tem dentro da vida custa tempo. O tempo precisa respeitado. Não precisamos ultrapassá-lo ou adiantá-lo.
Na história, Benjamin nasce no último dia da primeira grande guerra. O melhor relojoeiro da época era cego e tinha perdido o filho em batalha. Ficou devastado. Ele foi contratado para construir o relógio da Grand Station, que assim que começou a funcionar, seus ponteiros iam para trás, como a humanidade atual.

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