Ele dizia que conhecia as pessoas. Era muita gente. E muita gente se interessava por suas histórias. Rubens era a atração no botequim. Seu nome estava no cardápio. Era parte da trajetória etílica do estabelecimento.
— Mas um vampiro que é porteiro?
— Sim. Porteiro.
— Por que ele seria porteiro se é imortal?
— Aconteceu.
— Como pode ser velho? Vampiros não envelhecem.
— Ele foi mordido idoso. Outro vampiro, entregador (noturno) do Mercado Livre, foi deixar uma mercadoria. Não tinha feito seu desjejum e, pronto. Sr. Horário virou vampiro. E se manteve porteiro, somente expurgando o alho de sua marmita diária.
— Ele já mordeu alguém?
— Nunca. Usa dentadura. Sua sorte de sobrevivência é trabalhar no turno da noite.
As pessoas ficavam intrigadas, mas ao mesmo tempo encantadas com as histórias de Rubens. Sr. Horário, o Vampiro-Porteiro, era somente um dos personagens da vida do Boêmio-Contador.
— Lobisomem?!
— Sim. Sim.
— Depilador?
— Como é a vida, não é mesmo?
— Ele fez um curso?
— Senac. E sua única regra era não trabalhar nas semanas de lua cheia. Não era bom (ou um pouco assustador) para os negócios.
Rubens não tinha fim. A cada dia era como um capítulo de romance. Entre o pedido de uma nova gelada ou aquele aperitivo mais forte, sempre recebia um: Conta mais uma Rubão!
— O Batman?! Não venha nos enganar.
— Você quem sabe. Da minha boca só saem verdades.
— Ele é um super-herói. Um personagem de história em quadrinhos Rubens.
— Lavava o Batmóvel na rua da minha casa. Minha vizinha era faxineira na Batcaverna. Odiava, e pedia valor extra porque era grande e escura. Sempre batia o dedinho em alguma rocha.
— E como ele está então?
— Como um morcego velho. Fez cirurgia de catarata e hoje joga gamão todos os dias com o Pinguim.
Se era mentira, não parecia. Se era verdade, soava improvável. E Rubens continuava. Dia após dia. Revezando seus cotovelos encostados no balcão do boteco. Ganhava muitos drinks dos frequentadores. — Sidney vê mais um rabo-de-galo para o Rubens, que essa história eu quero ouvir.
— Além de jogador, artilheiro?
— Por anos seguidos!
— Com uma perna só?
— Nasceu assim. E uma advertência: Por favor, respeito. Não destaque as diferenças.
— O Saci?
— Sim, de gorro vermelho e camisa 10! Chute de trivela indefensável.
— Não pode ser.
— Seu mau era o cachimbo. Aposentou cedo. Câncer.
Seus personagens eram famosos. Amigos de Rubens de décadas, mundos, fantasias ou galáxias diferentes. As pessoas ficavam indignadas e ao mesmo tempo, morriam de inveja. Queriam também ter tido a mesma chance ou a sorte de Rubens.
— Essa você não me pega.
— Tô-te-falando-pô.
— Se tivesse dado uma olhada para ela, teria morrido.
— Claro! Até estranhei no começo. A achava bem mau educada por isso.
— Quer dizer que conversava com a Medusa?
— Ela de costas, óbvio. Qualquer espiadinha, seria estátua de Rubens. Mais uma cerveja aqui Sidney!
— E ficava olhando para as costas dela?
— Sim, sem dúvidas. Conversávamos, mas eu era esperto. Ela tinha fama de cobra.
E Rubens seguia assim. Entretendo os clientes do Botequim do Sinatra. Que não tinha esse nome porque o proprietário era filho de uma grande fã do Mr. Blue Eyes e sim, devido ao batismo pelo próprio Frank Sinatra, quando namorou a prima de Rubens de Jataí.
— Ela apareceu no seu banheiro? Só para você?
— Por que não poderia? E não é “só para mim”. Muita gente comenta dela.
— Ela não é uma “entidade” das escolas? O que você estava fazendo na escola?
— Supletivo.
— E você não se assustou com a tal Loira do Banheiro?
— Claro que não. Loirão! Um pouco pálida, confesso.
Mas um dia a história deu uma reviravolta. Sidney entristeceu. Há dias Rubens na aparecia. O público do Botequim do Sinatra estava diferente. A saudade coletiva era grande. Todos sentiam falta das duvidosas histórias de Rubens, mas sempre divertidas. Rumores começaram a surgir. Teria Rubens sido abduzido? Ido visitar o Pé Grande em algum país do norte? Descido para praia com Aquaman? Quem saberia?
Até que um dia um novo cliente encosta no balcão riscado de mágicas conversas em sua madeira.
— Aqui é o bar que o Sinatra batizou o dono? Você que era amigo dele?
Sidney iluminou. Como um discípulo cristão, se sentiu benzido.
— Não, mas fui parceiro de vida dele. Tudo começou com uma turnê…
E assim as místicas histórias perpetuaram por mais gerações. Os contos de Rubens nunca morreram ou desaparecerem como ele. Talvez aumentaram um pouco ou se transformaram. Assim como o amigo Vampiro-Porteiro ou Porteiro-Vampiro, Rubens — O contador de histórias — se tornou imortal.

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