#09 | Procura-se gente para assombrar

— Esse 31 de outubro foi um fracasso!

— Acho que você está exagerando.

— Exagerando? Era nossa Black Friday. Nosso Natal. O principal dia do ano!

— O Halloween está super estimado. Já está ficando meio “antiguinho”.

— Além de um fantasma sem utilidade, você está ficando preguiçoso e acomodado. Até mandei fazer lavagem especial dos nossos lençóis. Viu como estão branquinhos?

— Gostei do cheirinho desse novo amaciante.

— Não desfoca. Temos um problema. A gente não faz nada aqui. Não entra uma alma… opa desculpa, força do hábito. Não entra um humano nessa casa. Nem entrega errada a gente recebe.

— Gosto dessa vida tranquila.

— Que vida? Você sabe que é infinita, não sabe?

— Você não está sabendo aproveitar as pequenas coisas. Ontem fiquei na janela e quase. Quase. Quase alguém me viu.

— Quase? Quase? Essa casa é no final da rua. Nem para cemitério indígena ela serve. Está abandonada há mais de 50 anos. Mendigo acha longe vir passar a noite aqui. Ela saiu até da listagem da campanha da dengue.

— Ok. Ok. Ok. Que saco… O que sugere então? Irmos para categoria de alma penada (sem teto)? Sair daqui e se misturar com aquele pessoal de baixa classe que fica na rodovia de madrugada? Sabia que o nível de dopamina deles é altíssimo? É quase um scrolling infinito ficar assustando gente que passa a mais de 100km/h.

— Sei que temos que agir. Não dá mais para ficar sem fazer nada. É quero uma carreira. Um futuro. Quero ser inspiração de filme de terror. Uma personagem de livro de livro famoso, mas preciso de testemunhas. Preciso usar meus dotes e assombrar gente.

— Acho que a gente deveria divulgar na internet. Sei lá. Criar uns perfis de mídia social. Fechar parceria com alguns “espíritos-influencers”.

— Aí, essa palavra “influencers” me dá arrepios.

— Um a zero para mim. Bati minha meta do dia, pelo menos fiz alguém sentir algo.

— Espertinho. Cheio de graça. Estou em sofrimento aqui. Quero dizer. Pelo menos acho. Vida de espírito é meio vazia. Meio transparente. Esse lance de perder a gravidade e precisar de um pano branco para ser visto é deprimente. Me deram a opção do céu. Achei tedioso. O inferno. Um pouco quente. Sempre fui mais do inverno. O purgatório. Muita gritaria. A última era essa, ficar por aqui. Assustar e dependendo do local, até ver um filminho. Sabe que fiquei meio fã de Stephen King e Hitchcock depois dessa minha passagem.

— Eu escolhi pela calmaria mesmo. Mas acho que dei azar. Meu parceiro é um espectro viciado em trabalho.

Toc. Toc. Toc.

— Alguém chegou. Eba! Não vacila. Como combinamos.

— Tá. Tá. Tá bom…

— Deixa ele entrar. Aqui dentro temos mais área de palco para nossa atuação.

Toc. Toc.

— Espera. Mas se a gente o assustar, ele vai fugir e vamos ficar sem ninguém novamente.

— Essa é a ideia, cabeção… Depois virão outros. Bora! Abre!

— Estou tentando. Minha mão passa pela maçaneta.

Toc.

— Concentra. Rápido. Ele vai acabar indo embora. A gente consegue fazer barulhos e empurrar coisas, lembra?

— Não consigo. É muita pressão. Estou nervoso. Eu falei que aquele ensaio estava furado.

— Deixa comigo. Eu abro. Bu!

— Bu!

— Bu?

— Bu…

— Cadê?

— Eu te falei…

— Não. Que maldição. A culpa foi sua!

— Minha Sr. Diretor Artístico?

— Desisto. Você ainda tem o contato daquele influen…

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