— Esse 31 de outubro foi um fracasso!
— Acho que você está exagerando.
— Exagerando? Era nossa Black Friday. Nosso Natal. O principal dia do ano!
— O Halloween está super estimado. Já está ficando meio “antiguinho”.
— Além de um fantasma sem utilidade, você está ficando preguiçoso e acomodado. Até mandei fazer lavagem especial dos nossos lençóis. Viu como estão branquinhos?
— Gostei do cheirinho desse novo amaciante.
— Não desfoca. Temos um problema. A gente não faz nada aqui. Não entra uma alma… opa desculpa, força do hábito. Não entra um humano nessa casa. Nem entrega errada a gente recebe.
— Gosto dessa vida tranquila.
— Que vida? Você sabe que é infinita, não sabe?
— Você não está sabendo aproveitar as pequenas coisas. Ontem fiquei na janela e quase. Quase. Quase alguém me viu.
— Quase? Quase? Essa casa é no final da rua. Nem para cemitério indígena ela serve. Está abandonada há mais de 50 anos. Mendigo acha longe vir passar a noite aqui. Ela saiu até da listagem da campanha da dengue.
— Ok. Ok. Ok. Que saco… O que sugere então? Irmos para categoria de alma penada (sem teto)? Sair daqui e se misturar com aquele pessoal de baixa classe que fica na rodovia de madrugada? Sabia que o nível de dopamina deles é altíssimo? É quase um scrolling infinito ficar assustando gente que passa a mais de 100km/h.
— Sei que temos que agir. Não dá mais para ficar sem fazer nada. É quero uma carreira. Um futuro. Quero ser inspiração de filme de terror. Uma personagem de livro de livro famoso, mas preciso de testemunhas. Preciso usar meus dotes e assombrar gente.
— Acho que a gente deveria divulgar na internet. Sei lá. Criar uns perfis de mídia social. Fechar parceria com alguns “espíritos-influencers”.
— Aí, essa palavra “influencers” me dá arrepios.
— Um a zero para mim. Bati minha meta do dia, pelo menos fiz alguém sentir algo.
— Espertinho. Cheio de graça. Estou em sofrimento aqui. Quero dizer. Pelo menos acho. Vida de espírito é meio vazia. Meio transparente. Esse lance de perder a gravidade e precisar de um pano branco para ser visto é deprimente. Me deram a opção do céu. Achei tedioso. O inferno. Um pouco quente. Sempre fui mais do inverno. O purgatório. Muita gritaria. A última era essa, ficar por aqui. Assustar e dependendo do local, até ver um filminho. Sabe que fiquei meio fã de Stephen King e Hitchcock depois dessa minha passagem.
— Eu escolhi pela calmaria mesmo. Mas acho que dei azar. Meu parceiro é um espectro viciado em trabalho.
Toc. Toc. Toc.
— Alguém chegou. Eba! Não vacila. Como combinamos.
— Tá. Tá. Tá bom…
— Deixa ele entrar. Aqui dentro temos mais área de palco para nossa atuação.
Toc. Toc.
— Espera. Mas se a gente o assustar, ele vai fugir e vamos ficar sem ninguém novamente.
— Essa é a ideia, cabeção… Depois virão outros. Bora! Abre!
— Estou tentando. Minha mão passa pela maçaneta.
Toc.
— Concentra. Rápido. Ele vai acabar indo embora. A gente consegue fazer barulhos e empurrar coisas, lembra?
— Não consigo. É muita pressão. Estou nervoso. Eu falei que aquele ensaio estava furado.
— Deixa comigo. Eu abro. Bu!
— Bu!
— Bu?
— Bu…
— Cadê?
— Eu te falei…
— Não. Que maldição. A culpa foi sua!
— Minha Sr. Diretor Artístico?
— Desisto. Você ainda tem o contato daquele influen…

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