#10| Chuveiro de ideias

Haroldo era diretor de criação. Com diversos prêmios consagrados na área. Leão de Ouro. Clio Awards. Entre outros. Ele só tinha um problema. O chuveiro. Chuveiro? Haroldo só conseguia criar suas campanhas no banho.

— Onde está o Haroldo?

— Você sabe…

— De novo!

— Sempre.

Chegava Haroldo de banho tomado, cabelos molhados e campanha pronta. Sucesso!

Logisticamente não era tão simples assim. Cada cliente, um desafio. Ou vários deles. Muita água rolava para que as ideias de Haroldo tomassem vida. E escorressem de cada chuveirada para o papel. Ele já tinha tentado de tudo para se livrar dessa maldição. Caminhada. Dirigir sem destino. Meditação. Diário e até Tai Chi Chuan, mas nada funcionava. O bloqueio vinha e Haroldo correria para o banheiro.

Sua vida apesar de cheirosa e limpinha, não era fácil. Receber um novo briefing era como uma saga de duchas. Não tinha lugar que Haroldo já não tinha tomado banho. Casa do genro. Churrasco do estagiário. Ônibus da CVC (nunca comentou como conseguiu) e quermesse da cidade.

— Você nunca tentou só ligar o chuveiro e ficar fora?

— Claro!

— Funciona?

— Não…

A água tinha que escorrer na cabeça de Haroldo. Como um catalisador de criatividade. Ele estava cansado. Não aguentava mais viver com os dedos enrugados e os olhos vermelhos de shampoo. Construíram um vestiário na agência só por causa dele. Ele não sabia se ficava feliz ou triste. A carreira era vitoriosa, mas com grande exposição. Já tinha recebido mais apelidos do que metros cúbicos de água desperdiçada. Duchaman. Haroltuno. Chuveidon. Jacques Cousteau da inspiração. Fora os trocadilhos nada divertidos.

— Chega aqui Haroldo, mergulha nessa ideia.

— Hoje é sábado hein Haroldo. Dia de banho. Opa! É nada, só terça-feira à tarde.

Ele chegou até sofrer com a inveja de outros criativos, pelo seu “poder”, que na verdade era sua kryptonita. A caixa de sugestão era cheia de solicitações para baixar os custos do escritório com o corte dos banhos do Haroldo.

Um dia tudo mudou. Sua vida “banhística” tinha que encerrar, se não ir acabar se afogando de tristeza.

Entrou no banho decidido. Seria sua última vez de uma ducha para ter uma ideia. Ele não queria mais esse tormento. Ele abriu a torneira e mentalizou: Quero uma solução!

A ideia veio: Chuveiro de Ideias.

Haroldo virou palestrante. Como um bom-coaching-de-papo, vendeu o mesmo conteúdo até ficar rico. Virou o guru da ducha e formador de opinião dos chuveiros.

E daquele momento em diante, só tomou banho de banheira.

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